Em Discussão:
2010 na retrospectiva de um ativista do Software Livre
Por Wilkens Lenon
O ano de 2010 foi um ano que entrará para a história digital da humanidade porque mostrou como a Internet pode tornar-se uma espaço político poderoso nas mãos da sociedade civil organizada. A natureza livre da Internet desnudou a hipocrisia do império quando o fantástico Julian Assange do Wikileaks mostrou ao mundo com funcionam as maracutaias diplomáticas das nações mais poderosas da terra e dos seus satélites na periferia do sistema. A cultura hacker mais uma vez foi a vanguarda das liberdades fundamentais na rede, especialmente quando foi necessário afirmar a liberdade de expressão e de opinião e o direito à comunicação no mundo globalizado.
Esse acontecimento fez aumentar ainda mais os ataques à neutralidade da rede cujo perigo está no controle do tráfego das informações pelas empresas de Telecom a partir das tentativas de estabelecer filtros de dados na camada física da rede sob o controle dessas empresas. Isso feito à revelia dos usuários, ou seja, na prática da censura pura e simples.
No Brasil teve senador com discurso inflamado contra o Wikileaks. A comunidade de Software Livre sabe bem de quem falo. Só poderia tratar-se do famigerado Eduardo Azeredo autor do Projeto de Lei nº 84/99 – o AI5 Digital que criminaliza o livre uso da rede e estabelece a vigilância sobre os usuários da Internet. Tal Projeto foi rechaçado pelas Comunidades de Software Livre e internautas engajados e recentemente, após ter sido barrado no Senado Federal, estão tentando ressuscitá-lo na Câmara dos Deputados…estamos atentos e mobilizados! As nossas lutas serviram para alimentar ainda mais os nossos sonhos. A Internet livre produziu fatos impressionantes durante esse belo ano de 2010.
A explosão da blogosfera e das redes sociais em 2010 servem para nos desafiar à participação na construção do espírito do nosso tempo. Vivemos um momento único em que as práticas recombinantes na rede produzem e modificam as estruturas sociais do nosso modo de vida contemporâneo fazendo emergir da vida em rede novas formas de cultura. Na verdade surge em nosso cotidiano uma verdadeira diversidade cultural feita de afetividades, sentimentos e pensamentos que extrapolam as limitações do espaço e do tempo. A blogosfera inaugurou formas novas e mais democráticas de participação popular na esfera pública. As pessoas, cada vez mais, se comportam como precisa ser o coletivo humano: Uma sociedade de Interagentes. Não simples leitores ou receptores passivos de informação, mas atores e atoras atuantes e produtivos vivenciando o tempo da coautoria e das remixagens possíveis nos espaços digitais.
Em 2010 a velha mídia se viu, em vários momentos, numa saia justa e, algumas vezes, completamente desacreditada por conta da transparência radical do modus comunicante da rede e de seus autores. Foi por isso que bolinhas de papel continuaram sendo apenas bolinhas de papel ao invés de serem transformadas em “Tijolos”, e “Rolos de fita crepe”, objetos fictícios da mídia acostumada a transformar em verdade o impacto da imagem.
Vimos a lei complementar nº 135 – da Ficha Limpa – ser aprovada por unanimidade pelo Congresso Nacional brasileiro, não por vontade dos políticos, mas por conta da sociedade civil mobilizada através das petições onlines já tão populares na rede. Aliás, a rede tem dessas ações coletivas de mobilizações inacreditáveis. Bem já dizia o professor Sérgio Amadeu da Silveira durante o curso “Cidadania e redes digitais” ao ministrar uma das aulas (todas foram onlines e em tempo real) para os seus alunos da P2PU – Peer To Peer University: “a Internet inaugurou a comunicação interativa, multidirecional e transnacional. seus usuários não são receptores ou simplesmente emissores, são interagentes. ” Em seguida ele arrematava falando com uma síntese fantástica o que seria a base da neutralidade da rede e o resultado desse arranjo cibernético para a vida dos usuários: “a arquitetura da rede distribuída, de troca livre e anônima de pacotes digitais garantiu o seu enorme sucesso. ” Todas essas conquistas são, inicialmente, conquistas das Comunidades de Software Livre. Muitas foram as lutas e desafios, mas também vieram as boas realizações.
Neste ano que se finda surgiram novas oportunidades para as Comunidades de Software Livre. Comunidades que são o protótipo inicial da sociedade da informação como já dizia Manoel Castells, o grande pensador da era da informação. Enquanto o modelo proprietário de conteúdos digitais luta contra os fluxos de conhecimento restringindo as participações coletivas pela imposição dos seus modelos de mercado, nossas comunidades se colocam na vanguarda da colaboração dos conteúdos e das práticas recombinantes na rede. A Comunidade BrOffice.org, por exemplo, logrou uma grande vitória em função do surgimento da TDF – The Document Foundation (Fundação do Documento) que teve, para a alegria de todos/as nós, o Brasil como um dos países signatários dessa grande aliança pelo desenvolvimento colaborativo do Libre Office através da OSIP BrOffice.org. Libre Office é a nova suíte de escritório que passou a ser desenvolvida colaborativamente após o rompimento da comunidade de usuários com a ORACLE, atual dona da suíte openoffice.
Enfim foi um ano e tanto para o Brasil e para os brasileiros. Não perderia a oportunidade de enaltecer nossa jovem democracia que nos possibilitou a maior das vitórias em 2010: a eleição da primeira flor do palácio – Dilma Rousseff, presidenta do Brasil. É a força da mulher no comando do florão da América. É a esperança de um Brasil ainda melhor, mais humano, mais fraterno e mais livre sob todos os aspectos da vida em sociedade.
Que venha 2011 com seus desafios e comprometimentos. Não estaremos sozinhos. Somos uma grande Comunidade humana unidos pelos nós da rede. Laços carregados de desejos, sentimentos, pensamentos humanos grávidos de realizações!
Viva o Software Livre! Viva a Liberdade! Viva 2010! Que venha 2011!





